20.03.2017

Apêndice

Gilberto Mariotti

Apêndice foi a legenda que me veio ao ver a foto.
Aderindo involuntariamente ao procedimento utilizado por Barthes em seu Câmera Clara, como se fosse possível adicionar mais esta imagem à costura narrativa que confecciona os dois conceitos, Punctum e Studium, que se alternam e de certo modo se complementam em seu livro. Studium, neste caso, como contexto amplo das situações várias que envolvem a escravidão, ou o escravismo, como faz questão de diferenciar Alencastro em seus seminários, abrangendo também o que nos escapa, ou o que, faltante, serve de esteio à cegueira necessária e suficiente para o jogo que dá manutenção ao escravismo. Um campo vasto que também implica em um certo gosto, um senso de beleza (como nas pretensas representações de trabalhadores explorados) que nos pede simpatia, compaixão, manipulando com ou sem classe o incômodo que se alterna à indiferença. E Punctum, esta pontuação: uma fisgada que marca. Barthes usa o termo furo, o que me leva a associar nossa relação com ele ao atravessamento, no jogo instaurado por esta imagem, que me provoca a zona do contato entre o ombro desta mulher que nos olha sem nos ver, e o rosto preciso do menino. O lugar de uma certa “intimidade” – como descreve Alencastro.

O professor conta que pensava frequentemente nesse nomear de conceitos em Barthes quando do processo de escrita do texto sobre a foto que dispara esta série de apontamentos sobre alguns aspectos da representação do escravismo no Brasil. Alencastro diz ter deixado estrategicamente, durante algum tempo, em cima de sua mesa a foto, coletando impressões, reações e reflexões sobre a imagem de colegas com os quais mantinha interlocução próxima. Teria sido de Rodrigo Naves a frase que fecha o texto, “Quase todo o Brasil cabe nesta foto” (não deixo de me perguntar se o “Quase” pode ter sido adicionado a posteriori, como que para garantir certa margem de erro….

Uma iniciativa ligada a uma visão própria do papel desempenhado pelas imagens em um livro como “A História da Vida Privada no Brasil”, e que reconhece a potência do material fotográfico, a ponto desta foto, feita em 1860 originar o texto, compreendido por ele como de uma autoria coletiva, em que se coloca seu caráter emblemático para a representação do escravismo no Brasil. Evidência disso a frase de abertura, que se refere diretamente ao corpo da imagem, como se a desnudasse. Não era então o texto ou mesmo a foto, mero apêndice da visão histórica que permeia o livro.

A especificidade da fotografia enquanto mídia apresenta suas demandas, que ao mesmo tempo se colocam como imposição técnica e jogo revelador das dinâmicas sociais.

“Na época era preciso esperar no mínimo um minuto e meio para se fazer uma foto.” […] “Talvez por sugestão do fotógrafo, talvez porque tivesse ficado cansado na expectativa da foto, o menino inclinou-se e apoiou-se na ama.” ALENCASTRO, Luiz Felipe de (org). História da Vida Privada no Brasil (v.2) São Paulo: CIA das Letras, 1997.

Isto nos diz, inequivocamente, de uma intenção do fotógrafo? Talvez diga mais sobre um limite e como esta limitação, aparentemente um pressuposto “meramente” técnico, é apropriada pelos saberes dos agentes envolvidos. Uma solução do e para o visível, um significante sempre polissêmico transbordante de significados, e que a posteriori poderemos citar como justificativa de nossos recortes em atividades de pesquisa.

Deste furo, fisgada ou ponto, vaza a possibilidade de uma reflexão sobre o que pode ser para nós o Studium, visto que é essa intimidade dúbia, ambivalente, que a amplidão do tema ainda podia escamotear superficialmente, e que agora escorre, ou seja, o ponto de vista do observador, que passa a conter e admitir a complexidade das grandes questões e narrativas, e ao mesmo tempo estar implicado em suas mais pontuais e ubíquas consequências: se passamos de observador a sujeito, como ocorre na relação com outras imagens, passamos a enxergar nossa incapacidade de ver. Mas uma mão me guia para tocar e ser o que meu olho já não enxerga.
“Apêndice” então, talvez dê conta deste apoiar-se… Mas quem seria apêndice de quem?

Esta escolha que privilegiaria um recorte, o excludente, me parece também subjacente ao texto de Alencastro: sabemos que o corpo da ama é feito como de apêndice ao de seus senhores, um prolongamento dado a preencher e ampliar em competência o que aos seus corpos faltam, ou não competem: amamentar, abraçar, cuidar…

Por outro lado, a foto planifica os corpos, por meio de sua composição, fundindo os contornos destas duas figuras, de modo que esta mancha clara que se apoia, e para isso parece depender do volume escuro, centrado, e estável (como uma peça de mobília antiga), é visualmente exposta como lateral, e sua minoridade dependente tende a enganar. O vulto ao que se refere o texto como uma primeira configuração de mundo do ponto de vista da criança, se reconfigura na composição fotográfica em seu contraste, claros e escuros em um mesmo contorno. Seria o caso de rasurar a legenda, passando o termo de “Apêndice” a “Parasita”, ou antes deixar que uma percepção da dupla dependência entre as duas figuras nos incomode um pouco mais? Poucas imagens acolhem contradições desta ordem de complexidade.

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