27.03.2017

Contrageografias de um mundo secreto

André Mesquita

Tal como observei no primeiro texto desta editoria, as possibilidades de aproximar intervenções coletivas ao uso de mapas impulsionados por movimentos sociais, como fez a Assembleia de Resistência ao Fórum 2004 em Barcelona, possibilitam a produção de contracartografias, mas também de contrageografias sobre um estado de emergência que opera entre a violência e o medo. Contrageografias devem trabalhar para tornar visível o invisível: mapear e visualizar “as geografias ocultas do novo urbanismo militar. Uma vez que aquilo que está oculto é revelado, suas mitologias sedutoras e onipresentes podem ser confrontadas e potencialmente revertidas.”1Para o professor Stephen Graham, contrageografias não apenas procuram quebrar com a lógica perversa dos poderes que eliminam as fronteiras entre as indústrias de segurança e entretenimento, fundamentalismo de mercado e situações de pânico e vigilância permanentes, mas também são um importante complemento aos métodos mais tradicionais de resistência e mobilização política através de práticas artísticas, pesquisa multidisciplinar e cartografia.2 Estratégias que expõem os silêncios e a violência dos mapas do novo urbanismo militar também revelam as estruturas de um mundo secreto descrito pelo artista e geógrafo Trevor Paglen como “os espaços mais ‘sombrios’ da Guerra ao Terror confundindo-se com as paisagens do dia-a-dia e sendo, muitas vezes, mutuamente constitutivos.” 3

As manchas vazias que encontramos cotidianamente nos mapas mostrados por ferramentas como Google evidenciam silêncios e omissões. Aeroportos, laboratórios, prisões e bases usadas por militares e agências de inteligência desaparecem nas imagens borradas de alguns mapas, escondendo a existência de um “mundo secreto” operando nas sombras da vida cotidiana. Paglen comenta que manchas vazias nos mapas surgiram depois que Colombo e os exploradores portugueses começaram a cartografar o Novo Mundo. “O Planisfério de Cantino [1502], um dos primeiros mapas sobreviventes do Novo Mundo, mostra fragmentos dos litorais da América do Norte e do Sul. Para além desses fragmentos, o mundo é vasto, vazio e inexplorado”4, diz Paglen. Embora os mapas de circunavegação marítima de Fernão de Magalhães também contivessem muitas manchas vazias sobre os limites da exploração espanhola, esses mapas apresentavam mais detalhes do que aqueles que circulavam entre as pessoas. “Os mapas secretos dos impérios português e espanhol mostravam relevos e rotas comerciais que os impérios rivais procuravam esconder uns dos outros. Outros mapas intencionalmente incorretos foram produzidos e ‘divulgados’ de um império para o outro em elaboradas campanhas de desinformação e fraude”5 , complementa.

O Planisfério de Cantino (1502) é uma cópia do Padrão Real, obra cartográfica que encontrava-se exposta na Casa da Índia. Foi obtido clandestinamente por Alberto Cantino em Portugal e entregue ao duque de Ferrara na Itália.

Violência clandestina

Quando os cartógrafos medievais e do início da Idade Moderna desenhavam serpentes ou dragões em áreas vazias de um mapa, o objetivo era assinalar a presença de territórios desconhecidos ou perigosos. A expressão Hic sunt dracones (Aqui há dragões), que aparece gravada no Globo de Hunt-Lenox (de 1510, aproximadamente), cumpre essa mesma função indicativa. Hoje, a Terra Incognita de um mapa global tem sido desbravada por investigações como as de Paglen. Seus livros e fotografias expõem as geografias ocultas de uma infraestrutura invisível espalhada pelo mundo e mantida pelo Pentágono e a CIA. De acordo com o artista, esse mundo secreto não aparece nos mapas oficiais, mas movimenta cerca de US$ 50 bilhões anuais de investimentos e emprega quatro milhões de pessoas trabalhando com habilitações de segurança nos Estados Unidos. 6

Para encontrar uma prisão clandestina da CIA localizada no Afeganistão, chamada de “Salt Pit”, Paglen usou uma coleção de imagens do Google Earth, reuniu depoimentos de ex-prisioneiros e um mapa desenhado à mão por Khalid El-Masri, detido por quatro meses naquela prisão. Com uma câmera e uma lente de longa distância, Paglen fotografou a prisão de Salt Pit, sendo essa a primeira imagem pública do local. Em parceria com o repórter A.C. Thompson, Paglen também realizou viagens para pesquisar documentos desclassificados e reunir depoimentos e informações sobre o programa de “Rendição Extraordinária”, praticado pela CIA como um método ilegal de combate ao terrorismo. Até 2009, centenas de “terroristas suspeitos” foram detidos em aeroportos ou em suas próprias casas, e levados em voos para outras prisões clandestinas da CIA mantidas em países onde os suspeitos não teriam proteção legal das leis norte-americanas, como Egito, Marrocos, Paquistão, Polônia, Tailândia e a Baía de Guantánamo. Interrogados e torturados durante dias ou meses para obtenção de informações, alguns foram obrigados a assinar confissões falsas mostrando que mantinham relações com organizações terroristas como a al-Qaeda.

Implantado nos anos 1990 durante o governo de Bill Clinton, o programa foi autorizado por George W. Bush seis dias após os atentados de 11 de Setembro e se valeu do uso de empresas aéreas de fachada para esconder os voos, garantindo a CIA um exercício pleno de captura e controle, assim como a criação de uma rede secreta de prisões pelo mundo.7 Paglen e Thompson rastrearam os registros dos números dos voos e traçaram as rotas de aviões em aeroportos comerciais internacionais usados para as apreensões irregulares. “O mundo está cheio de coisas que são muito difíceis de se esconder. Quanto se tenta esconder algo, sempre surgem contradições. Basta procurá-las”8 , observa Paglen.

Salt Pit, Shomali Plains Northeast of Kabul, Afghanistan (2006). Fotografia de Trevor Paglen sobre a prisão de tortura administrada pela CIA no Afeganistão.
Mapa criado por John Emerson a partir da pesquisa de Trevor Paglen sobre as rotas dos voos de tortura realizados pela CIA entre 2001 e 2006 (quando a agência proibiu que Paglen continuasse com suas investigações). Com o coletivo Institute for Applied Autonomy, Paglen realizou o projeto Terminal Air, com uma página (http://www.appliedautonomy.com/terminalair/index.html) onde se pode consultar as rotas de centenas desses voos e os aeroportos que os receberam.

Desestabilizar e desconstruir

A Terra Incognita que vemos nos mapas e nos registros das fotografias de bases secretas no deserto realizadas por Paglen, ou até mesmo no mapa de Tabula Terre Nove, elaborado em 1513 por Martin Waldseemüller e incluído em sua versão do Atlas de Ptolomeu – onde o cartógrafo utiliza essa expressão para denominar uma área correspondente à América –, existe para nos dizer que o conhecimento é uma ilha cercada por oceanos do desconhecido. A Terra Incognita é um sinal dos limites do conhecimento9. Assim, uma pergunta sobre o invisível ainda permanece: como ler, interpretar e explicar o vazio que é revelado por mapas como aqueles que encontramos no Google?

A artista Laura Kurgan sugere ler esses vazios como a evidência de que estamos recebendo uma informação que já foi interpretada do ponto de vista comercial e militar e, como tal, seus dados são obscurecidos para omitir fatos e naturalizar essas imagens como verdadeiras10. A reinterpretação dos vazios enfatiza uma crise de representação provocada pela cartografia: mapas democratizam a informação enquanto promovem interesses específicos11. É nesse sentido que Brian Harley afirma a necessidade de propor uma metodologia de análise sobre a qual os mapas devem ser desestabilizados e desconstruídos, para que possamos ler suas agendas ocultas “entre as linhas e as margens do texto”12, descobrindo “os silêncios e as contradições que desafiam a honestidade aparente da imagem.”13 A resistência à autoridade cartográfica não se faz apenas ou somente desvendando e interpretando omissões, efeitos e intenções, mas também – e principalmente – construindo outros mapas que estejam mais próximos dos nossos interesses e das lutas políticas e sociais. Desconstruir significa “reinscrever e ressituar significados, eventos e objetos dentro de estruturas e movimentos mais amplos”14, e é nesse caminho que um projeto como Contracondutas pode avançar.

Tabula Terre Nove, mapa de Martin Waldseemüller publicado em 1513.

Notas de Rodapé

  1. GRAHAM, Stephen. Cities Under Siege: The New Military Urbanism. Londres: Verso, 2011, p. 351.
  2. GRAHAM, Stephen, p. 349 e 352.
  3. MOGEL, Lize e BHAGAT, Alexis (eds.). An Atlas of Radical Cartography. Los Angeles: Journal of Aesthetics and Protest Press, 2007, p. 45.
  4. PAGLEN, Trevor. Blank Spots on the Map. The Dark Geography of the Pentagon’s Secret World. Nova York: Dutton, 2009, p. 11.
  5. PAGLEN, Trevor, p. 12
  6. PAGLEN, Trevor, p. 4
  7. PAGLEN, Trevor e THOMPSON, A.C. Torture Taxi: On the Trail of the CIA’s Rendition Flights. Nova York: Melville House, 2006, p. 22 e 23.
  8. SANCHÍS, Ima. “En seis años la CIA ha secuestrado a cien personas”, in La Vanguardia, março de 2008. Disponível em: <http://www.rebelion.org/noticia.php?id=66005>.
  9. Ver SOLNIT, Rebecca. A Field Guide to Getting Lost. Londres: Penguin Books, 2005.
  10. KURGAN. Laura. Close Up at a Distance: Mapping, Technology and Politics. Nova York: Zone Books, 2013, p. 26.
  11. PICKLES, john. A History of Spaces: Cartographic Reason, Mapping, and the Geo-Coded World. Nova York: Routledge, 2004, p. 13.
  12. HARLEY, J. B. The New Nature of Maps: Essays in the History of Cartography. Londres: The Johns Hopkins University Press, 2001, p. 153.
  13. HARLEY, J. B. Idem
  14. Essa passagem, escrita por Terry Eagleton no livro Against the Grain (1986: 80), é citada por Brian Harley no ensaio “Deconstructing the Map” (1989). HARLEY, J. B. The New Nature of Maps: Essays in the History of Cartography. Londres: The Johns Hopkins University Press, 2001. p. 159.

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