18.07.2017

Novos sentidos do trabalho entre o campo e a periferia urbana (2): entrevista com Jotalune Dias dos Santos (JS), presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais Assalariados de São Paulo (FERAPESP)*.

Brian Garvey, Juan Toro

Jotalune Dias dos Santos

Nasci no Piauí, no nordeste do Brasil e mudei para São Paulo quando eu tinha seis anos. Estava cortando cana de açúcar no interior de São Paulo aos 15 anos, como um trabalhador migrante. Eu deixei o campo por um tempo, mas voltei. Fiz parte do movimento para apresentar um novo sindicalismo na região em 2001. Lembro que, em 2006, os usineiros introduziram a jornada de trabalho com escala de cinco dias de trabalho e um dia de folga, o que significava que não havia mais o final de semana em família para muitos trabalhadores. Imagina, uma família, a mãe, o pai e os filhos que trabalhavam na roça, o único momento de ficar juntos estava na plantação, não em casa, porque cada um teria um dia de folga diferente. Então conversamos com os trabalhadores, viajamos para diversas frentes da lavoura, mas as pessoas tiveram medo de lutar, medo de perder o emprego. Não houve uma greve na região em muitos anos. Tentamos negociar com os donos, mas eles não ouviram. Então, um por um, os trabalhadores entraram em greve na região. Não conseguimos acompanhá-los. Viajamos 300 km para um lugar para explicar que o proprietário estava mentindo, já que o mesmo dizia não haver greve, mas não tinha sido cancelada, a greve. A escala de cinco dias de trabalho e um de descanso foi abolida. Mas, vimos como o 100% dos trabalhadores foram demitidos dentro de 45 dias passada a greve. E as máquinas entraram. Eu tive que aguentar isso.

Quando estamos falando de trabalho, você deve lembrar-se primeiro que a FERAESP foi criada por causa da tensão entre pequenos produtores agrícolas e trabalhadores assalariados. Historicamente, você vê, essas categorias estavam unidas. Provavelmente 90%, se não todos os trabalhadores rurais assalariados eram governados por sindicatos que representavam pequenos agricultores. E você tem que entender que esses sindicatos rurais (STRs) eram um braço do governo. Olhe para 30 anos atrás. Para alguém chegar ao cargo de presidente do sindicato rural, devia contar de uma carta assinada pelo padre local, o prefeito local e o representante legal da polícia local! Então, esses sindicatos estavam no lugar para regular o trabalho. Alguns direitos foram dados, o acesso à saúde, por exemplo, em troca da conformidade. Os sindicatos não foram constituídos para lutar pelos direitos dos trabalhadores. Eles foram uma resposta às ligas camponesas, configuradas como uma maneira de contê-las, para acalmá-las. Então você poderia ser um trabalhador rural mal remunerado e o presidente da sua união poderia ser o grande proprietário da terra pelo qual estava trabalhando.

Assim, a FERAESP foi criada para garantir que o trabalhador rural assalariado fosse representado, mas sempre prestou atenção ao direito de trabalhar na terra. Porque para nós, o trabalhador rural assalariado de hoje é o sem terra do amanhã. Mas você tem uma cultura. O agricultor familiar é treinado para pensar sobre sua produção, para encontrar um mercado para os bens. O trabalhador assalariado é treinado, condicionado, para tentar melhorar seu salário.

Agora, no entanto, temos uma situação no Brasil, onde o que temos é uma quadrilha responsável pelo país. Essa gangue, sem vergonha, está retirando os direitos dos trabalhadores. Está desmantelando em um ano o que outros defenderam há 50 anos. Os olhos das pessoas estão observando os escândalos enquanto uma lei após a outra está sendo alterada de maneira drástica, vergonhosa. E a mídia fechou os olhos das pessoas. É uma escola de desinformação, enganando o povo brasileiro diariamente. E se as pessoas não têm a informação é porque estão no escuro completamente, é isso o que está acontecendo.

O trem de commodities passa pela ocupação da terra do Acampamento Capão das Antas, São Carlos, SP.

Então, eu quero ser clara: o que estamos fazendo não é uma visão para o futuro. É claro, para nós, que é agora que as pessoas devem obter a terra. O Brasil tem um nível de tecnologia na agricultura da mais avançada que há pelo mundo. Tecnologia do mais alto nível. Qual é o resultado? Mil hectares de terra com 10 ou 12 trabalhadores? Tratores automatizados, guiados por satélite. Então, temos produção, mas para exportação. Esta produção não beneficia o povo brasileiro. Não traz renda e nem traz comida. Assim, da mesma forma que as pessoas foram trazidas para trabalhar nas plantações coloniais, são descartadas. Andam lá na periferia da cidade, sem emprego, sem renda, sem perspectiva. Abandonados. Sem assistência e sem nenhum projeto de apoio do governo. São verdadeiras almas expulsas do sistema por este processo. Seus filhos nasceram em famílias da cultura de cana, gerações antigas.

Graças a Deus, de alguma forma eles sobreviveram a esse processo sobre o qual não tinham controle. É por isso que, desde o início da FERAESP, consideramos o projeto “Da Terra ao Prato” para organizar o fornecimento direto de alimentos saudáveis ​​e não tóxicos produzidos pelos assentamentos e indo, a produção, direto aos trabalhadores assalariados, que vivem nas periferias.

Mas sem uma verdadeira reforma agrária as pessoas ficam sem nada. Tudo é muito lento, a reforma agrária oficial é construída para evitar a reforma agrária na verdade. E a luta pela terra está cheia de injustiça. A discriminação, o preconceito que enfrentam os que lutam pela terra é intenso.

Então, quais são as opções? Os números mostram que cerca de 50% dos trabalhadores rurais são informais, sem registro, sem direitos. A lista dos que os exploram incluem deputados e senadores governamentais.

Os trabalhadores assalariados não estão condicionados a se unirem à luta pela terra. Mesmo entre eles, em vários deles há preconceitos contra os sem-terra ou daqueles que lutam pela terra e seus direitos. Muitas vezes, só quando todas as outras opções estão fechadas é que vão e se juntam à luta.

Como um trabalhador assalariado, você tem acesso a outras coisas que aqueles nos assentamentos podem não ter, ou leva 10 anos para adquirir. Então é só depois que os portões fecham que você se dirige para a terra. Não como uma opção, mas porque não há outras opções. A terra é uma coisa de ricos, não de pobres. Sem apoio nem suporte técnico a situação no campo é complicada. E os intermediários chegam vendendo algo, plantando alguma ideia de fora ou tomando recursos destinados à comunidade. Muitas pessoas são exploradas nessa situação e acham difícil confiar.

Então, o que eu sei é que não esperaremos nenhum governo para consertar isso. Na verdade, devemos confrontar a situação. Pessoas aqui no Brasil ainda estão esperando, esperando por algo, as pessoas são passivas. Mas o fato de que estamos sendo atacados e a maneira pela qual estamos sendo atacados significa que devemos lutar, não como opção, mas por nossa falta de opções. Aqui, quando há repressão, quando direitos são retirados, quando os trabalhadores são perseguidos desta forma pelo Estado, criminalizados, as pessoas se tornam conscientes e agem.

A hora de lutar chegou.

* Jotalune Dias dos Santos (JS), presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais Assalariados de São Paulo (FERAPESP). FERAESP participou no evento ‘Nossa Terra’ (“Our Land”) na Escócia, do qual Galgael foi anfitriã, em setembro de 2016. A FERAESP foi fundada no estado de São Paulo em 1989 e busca coordenar e defender interesses individuais e coletivos dos trabalhadores assalariados de atividades rurais no estado de São Paulo bem como organiza sindicatos afiliados

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