16.11.2016

Intervenções: apontamentos críticos

Pedro Fiori Arantes, Vinicius Spricigo

Tendo como fundamento as dimensões da arte ativista assinaladas por Brian Holmes (pesquisa crítica do problema real; arte participativa; penetração na mídia e comunicação em rede; aliança com movimentos sociais), os alunos da Unifesp que participam do laboratório de curadoria elaboraram textos sobre as propostas iniciais de Intervenções Públicas do Projeto Contracondutas. Abaixo publicamos alguns excertos dos textos e alguns tópicos dos debates ocorridos em classe.

1.

“Dentre as dimensões da arte ativista contemporânea que são propostas por Brian Holmes, talvez, a que trata de propor a arte como participativa seja a mais difícil de se prever pelo artistas. Todavia, a sua importância é determinante para que uma obra atinja um resultado profícuo e com caráter elucidativo e alcance um público de forma transformadora.”

(Rodrigo de Oliveira)

Debate em classe:

  • Poucos trabalhos são participativos e se constroem em diálogo e interação ativa com o público – ponto frágil do conjunto das obras.
  • O trabalho de Vânia tem interessante dimensão de coautoria com os operários, mas e depois, com os leitores do livro? Qual opção de recepção ativa e que o seu processo não seja apenas estetizado?
  • Carrinhos do Cento e Onze não são propriamente participação – ato mecânico de empurrar, não é interação maior. Alguém lembra de alguma propaganda que viu num carrinho? Dispositivo/display pouco efetivo. Discussão sobre visibilidade.
  • Mesmo na proposta do 308 – o que surge, nos pequenos aviões, é mais uma aproximação lúdica, sem problematização
  • Limite da relação entre curador e artistas. Qual possibilidade de construção conjunta?
  • Qual atenção é dada as questões que estamos levantando?
  • Artistas já estão com suas obras planejadas e em andamento. Estão dispostos a dialogar e repensar?

2.

“O dialogo se mostra essencial […], não somente a discussão de cada trabalho isoladamente, mas pensá-los dentro de uma construção coletiva, com um diálogo real com os problemas que envolvem o Aeroporto de Guarulhos, o canteiro de obras, e a questão do trabalho análogo à escravidão. Nesse contexto, não se trata de apresentar um conjunto de obras vanguardistas, mas de pensar alianças com os movimentos locais, agregando os movimentos dos trabalhadores de Guarulhos, culturais e políticos. […] Se a intenção é um ajuste de contas (ou de conduta), devemos pensar em condições efetivas de uma comunicação real com a população local.”

(Thiago Tozawa)

Debate em classe:

  • Nenhum trabalho está tentando o diálogo com movimentos, coletivos e comunidades de Guarulhos
  • Há claro desconhecimento do local e de com quem estão dialogando. Tem que mergulhar no contexto, relação aeroporto-cidade
  • Coletivo 308 conhece mais porque é daqui, saberá territorializar melhor seu trabalho
  • Grupo Paralelo é o mais distante, muito fora do contexto.
  • Entre eles também não há nenhum diálogo, nenhuma força de construção coletiva. Cada um por si.
  • Expectativas dos artistas e curadores (certo pragmatismo) x dos estudantes (expectativa de mais envolvimento/engajamento)

3.

a: “Uma proposta de mediação seria a elaboração de oficinas […] tanto dentro do contexto do projeto quanto num plano de ação envolvendo escolas e centros culturais. […] A curadoria poderia também usar o projeto do Coletivo 308 para linkar, através do QR Code, as outras obras. […] Nesse sentido haveria um link entre as obras, deslocamento pela cidade, diálogo com a comunidade com uma participação ativa dentro do projeto.”

(Laila Siqueira)

b:“Um […] ponto que liga os projetos ‘Paralelo’ e do Coletivo 308 é a existência do link ou código que levaria para uma página tratando mais detalhes sobre os trabalhadores e a situação em que estavam. Acho importante a problematização se de fato esse é um ponto viável, se as pessoas realmente se interessariam e buscariam esse acesso […]”

(Giovanna Lanfranchi)

Debate em classe:

  • Limites do link QR Code como participação / linkar como, com o quê?
  • Haverá de fato interesse pelo link?
  • Efetividade de jogar o público para a esfera virtual. Não estão deflagrando na verdade um enfrentamento/debate real com o problema
  • Displays e formas de chamar o acesso são desinteressantes
  • Falta disparadores mais fortes para os trabalhos, fazer as pessoas pensarem
  • Outras formas de escravidão contemporânea: inclusive o celular (necessário para o QR code) – exclusão de quem não tem. Para acessar o QR precisa ter celular com leitor, app e 3G, senão não funciona
  • Uso dos pequenos espaços públicos pelo 308. Territorialização interessante. Mas está produzindo diálogo com o público via avião de barro?
  • Proposta da Garbelotti (filme luz etc) é muito indireta em relação ao problema. As obras fazem parte de um TAC, tem que conscientizar, informar, problematizar…

4.

“Propor a elaboração de seminários sobre o assunto, dando espaço para as lideranças de movimentos, de frentes de trabalho e, claro, dos próprios trabalhadores.”

(Thierry Freitas)

Debate em classe:

  • Seminário levaria a diálogo entre as obras e com o fato que as originou
  • Debates que contextualizam, problematizam as obras e seu processo
  • Pode ser um desdobramento do estagiário que ajudar no projeto
  • Há conteúdo, mas precisa construir interesse em debate-lo
  • Quais lugares para esses debates? Universidade? Praça pública? Escolas?
  • Podem ocorrer nos lugares que recebam a base móvel e algumas das obras
  • Projetos deveriam fazer parte de um processo de “trabalho de base”. Questão do trabalho degradante é importante para se pensar a sociedade contemporânea
  • Projetos estão sendo feito com grana pública, existe uma responsabilidade pública nisso. Não dá só para viajar em poéticas subjetivas pessoais
  • Parece que estamos fazendo questões que não fazem sentido para os artistas. Subjetivismo dos artistas sem relação com o contexto social. Vão fazer, acabou, vai para portfólio.
  • Drama vivido por 111 pessoas. Será que estão cientes e de acordo com o que está acontecendo? Que eles estivessem presentes.
  • Recurso alavancados a custas deles. Estão alienados inclusive do processo artístico. Quem são os beneficiários? Bolaram tudo em nome deles.

5.

“Nós, moradores de Guarulhos, sabemos bem como a imagem da cidade é distorcida e vendida para aqueles que vem de fora. Apesar de ser fonte de renda de muitas famílias guarulhenses, o aeroporto não representa a cidade e não dialoga com o espaço ao seu redor (até esteticamente). Partindo do ponto que a obra possa ser interativa e, portanto, nela já se cabe um dialogo direto com o público, vale ressaltar a importância de propor mediações com os movimentos e instituições locais […] junto com um período de debates, rodas de conversa e oficinas que levem a população local (redor do aeroporto) à reflexão do que acontece tão perto de nós e é mascarado pela “beleza estética”, vendendo uma imagem não real.”

(Maira Rodrigues)

Debate em classe:

  • Dois públicos: cidade de Guarulhos e Aeroporto. Como dialogar com ambos?
  • Mesmo que aeroporto seja um microcosmo, com 20 mil trabalhadores, ele não resume em se a relação com a cidade/sociedade. Mesmo porque as moradias dos trabalhadores escravizados foi em bairros da cidade.
  • Duas propostas para dois públicos. Dialogar com a cidade, no Centro de Guarulhos (Praça Getúlio Vargas)
  • Campanhas para prefeito e vereador em Guarulhos ainda são feitas em carros de som circulando pela cidade, como cidade de interior. Padrão de acesso à informação…
  • Base móvel pode ser alternativa para circular e fazer elos entre os dois espaços (aeroporto e cidade)
  • Artistas estão pensando como dialogar com a base móvel? Que seu trabalho será exposto também por esse veículo?
  • Há um alheamento em relação à cidade
  • Não se interessaram pela condição dos outros trabalhos que não os que foram escravizados, mas são formas de trabalho alienadas, com exploração, dominação – não é natural
  • Trabalho da Vânia discute mais essa dimensão do trabalho na sociedade e não apenas o caso extremo

6.

a: “A utilização do aeroporto para exposição pode ser pensada de uma forma menos sutil. Por ser um local que trará grande visibilidade ao problemas, pelo grande fluxo de pessoas que transita diariamente de diferentes culturas e por sempre procurar ser um território agradável, de passeio […], ao se tornar palco de uma exposição que relata condições análogas ao Trabalho escravo na construção do próprio aeroporto, causará um choque de realidade em quem estiver transitando.”

(Thayna Casasola)

b:“Os artistas estão lidando com um problema real […] entendo que as frases proposta pelo projeto [Centoeonze], por serem subjetivas, podem ‘mascarar’ o problema real do Trabalho escravo. Talvez com as informações da pesquisa poderão provocar um maior impacto no receptor.”

(Mônica Rodrigues)

Debate em classe:

  • Aeroporto pode ser palco para esse debate, de forma aberta e franca. Por que tanta sutileza com um tema desse?
  • Tem que ter impacto. Tem que mobilizar as mídias do aeroporto pra informar também.
  • 111 carrinhos num aeroporto com 30 mil pessoas? Por um dia apenas? Vai servir para que? Para fotos da intervenção tão curta?
  • Público de viajantes dos aeroportos, em especial de terminais internacionais, são beneficiários do sistema – como se compadecer ou pensar no sofrimento alheio de pessoas que em geral são invisibilizadas, como na construção civil ou serviços domésticos.
  • Combinar carrinhos com outro tipo de intervenção, outros displays.
  • Diferenças entre comunicação de massa e publicitária e as artesanias artísticas – qual seu poder de influência?
  • Circulação dos carrinhos é interessantes, mas deveria ser por mais dias, associado a outras intervenções, mídias, debates, etc.

7.

“[…] O trabalho ‘escravo’ sempre é realizado por um grupo de pessoas vulneráveis. Uma grande oportunidade para repensar não só a construção civil mas outras formas de Trabalho escravo. […] É uma oportunidade muito interessante para pensar numa forma bem abrangente, não somente o caso do aeroporto […].”

(Mônica Pereira)

Debate em classe:

  • Trabalho escravo para além do caso isolado.
  • De novo: pensar o trabalho na sociedade capitalista como um todo e não apenas o caso extremo. O que tem de manutenção da escravidão nas formas em geral degradantes de trabalho em massa no mundo atual
  • Trabalho escravo na construção do Programa Minha Casa Minha Vida, por exemplo. Caso da MRV. Muitos conjuntos da MRV em Guarulhos e no entorno do nosso Campus.

8.

“O artista deve desenvolver sua poética livremente, nas no processo de seleção curatorial, com o incentivo público e oriundo também da Justiça, isso é similar a castração de sua potencia de se adequar às vozes do processo expositivo. […] É um equívoco talvez contar com a iniciativa privada ou a sanção legislativa para viabilizar as obras com a devida autorização […]”

(David Rosa)

Debate em classe:

  • Discussão sobre os termos do edital e se ele condicionava os trabalhos dos artistas
  • Artistas escolheram participar, aceitaram o diálogo
  • Não existe liberdade ou autonomia total dos artistas. Estão sempre em contextos de forças, instituições, mecenas, ideologias dominantes
  • Edital não foi restritivo. Mas ele limitou o diálogo e cooperação entre os artistas
  • Poderia haver um trabalho livre em diálogo, construindo o comum

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