25.11.2016

Manaus de Severiano Porto: um relato da Escola Itinerante

Felipe Noto

Passar em revista a obra de Severiano Mario Porto é percorrer um vasto ensaio sobre as maneiras de construir. A exploração de técnicas e materiais distintos, escolhidos de acordo com as particularidades do sítio e do programa, sempre pautada pelo discurso da racionalidade, leva à questão que se faz há mais de 50 anos no Brasil: por que não adotar a pré-fabricação?

A industrialização da construção é a panaceia utópica da formação dos arquitetos desde que Le Corbusier apresentou seu sistema Dom-ino; nada mais apropriado ao conceito de maquina de morar que certo apoio tayloritsta. É tentador imaginar as virtudes do processo mecanizado superando os dilemas crônicos dos canteiros de construção civil no Brasil: a falta de qualificação, o respeito ao projeto, o atendimento aos prazos, a redução de desperdícios.

A produção de Severiano Porto – ou o que resta dela – reverbera esse desejo e revela as frustações impostas pela realidade. Múltiplos conflitos se materializam nas decisões construtivas, como metonímias da construção de uma cidade de dois milhões de habitantes no interior da floresta amazônica.

O desenvolvimentismo da era militar é ainda muito presente em Manaus. Seja na constante referência à Zona Franca – num misto de orgulho e desinteresse de guias e arquitetos locais -, no constante ronco do motor de caças – a cidade é base estratégica para a defesa aérea da região norte -, ou na ostentação das obras de infraestrutura e de representação do Estado.

A sede da SUFRAMA (Superintendência da Zona Franca de Manaus) é emblemática. A repartição é a concretização da lógica autoritária dos anos 70: a reunião do estímulo ao desenvolvimento econômico de regiões isoladas e da transposição da presença do Estado como garantia de controle. O projeto (1973) é um elogio aberto à plasticidade do concreto, em homenagem à formação carioca de Severiano Porto. Ao mesmo tempo, enfrenta o desafio de sintetizar a complexidade do programa em uma única peça construtiva, uma cúpula modular de 15x15m que se multiplica desenhando os espaços necessários. Estas peças, com uma abertura zenital, controlam a luminosidade e permitem o fluxo de ar no sentido de sua exaustão.

O rigor teórico do partido, entretanto, não é levado ao limite pela solução construtiva; a modulação e a repetição instigam a otimização do canteiro, por meio de processos de pré-construção que nunca foram feitos.  É notável como a linguagem da construção, inclusive, remetem a edifícios industriais e à estética da pré-fabricação. O projeto original (refeito após um incêndio nos anos 90) propunha uma ocupação flexível sob a cobertura contínua, feita com painéis leves removíveis.

No ar resta o cheiro da vontade do arquiteto: arriscaria dizer que o intuito era industrializar. “Mas as peças são grandes demais para isso”, responde o engenheiro encarregado da manutenção do edifício, querendo convencer-me de que a engenharia local (capaz de implantar um parque industrial sobre a mata densa) não tinha tecnologia para tanto.

Talvez lhe devêssemos crédito, se considerarmos o que foi erguido em Balbina. Múltiplas lições do que não fazer.

Mais uma vez a ação do Estado ficará personificada pelo técnico que recebe os visitantes nas instalações da principal usina de geração de energia para cidade de Manaus, responsável por 15% de seu consumo. Os demais 85% vêm de Tucuruí, “mas entenda que lá eles estão num vale”, responde nosso anfitrião atencioso. Por que, então, temos uma barragem fora de um vale? “Isso foi num momento que essa história de meio ambiente não era como hoje…”

Superintendência da Zona Franca de Manaus - SUFRAMA, arq, Severiano Porto, Manaus, 2016. Foto: José Paulo Gouvêa https://www.instagram.com/escolaitinerante/

Eis o desastre de Balbina. Inundação de uma área sem precedentes, um lago que avança até alcançar os distantes terrenos mais altos; barragem de planície, ocupando uma vasta área desocupada. Desocupada? “Ah sim, os índios foram levados passa novos assentamentos, e hoje vivem muito bem”.

O Centro de Proteção Ambiental é o retrato do interesse da companhia elétrica pelo tema: está em ruínas1. O edifício, implantado nos primeiros metros da vila de Balbina – construída para a população deslocada pelas obras -, deveria abrigar pesquisas contínuas sobre os impactos da barragem e do funcionamento da usina; hoje, serve de portal para a enorme clareira feita na mata para a implantação da nova cidade.

O projeto de 1985 é possivelmente o ápice da trajetória profissional de Severiano Porto e talvez sua reposta final ao embate com as técnicas de construção. São muitas as pistas de uma postura: não há otimização, repetição nem vontade de pré-fabricação. Mesmo o beneficiamento da madeira é descartado: as peças estruturais são brutas, sem aparelhamento, em sua condição mais próxima à natural. O arquiteto Marcelo Borborema Correia lembra que Severiano defendia que a função do arquiteto era integrar a natureza e a cidade 2. É este o discurso explícito no edifício: a ordem cartesiana é desfeita, os blocos se sucedem, cada um com formas e alturas distintas, interligados por marquises. É a tentativa de recriar um percurso de trilhas e clareiras, como se a experiência de habitar a mata pudesse ser recriada pela arquitetura.

A desilusão com o insucesso com a industrialização é convertido em elogio à natureza intocada.

Talvez esse seja um dos dilemas centrais de Manaus. Mata e cidade são tratadas como elementos opostos. A imagem aérea da Reserva florestal Adolpho Ducke é a ilustração primordial desta tensão: a cidade avança como um enxame de formigas, destruindo cada pé de árvore que encontrar. A perfeição geométrica do quadrado que demarca da reserva é o retrato da total incapacidade de convívio entre os dois polos.

Centro de Proteção Ambiental de Balbina, arq. Severiano Porto, Presidente Figueiredo, 2016. Foto: Conrado Cavani https://www.instagram.com/concavani

Outro dado importante: Manaus e Belém são as capitais brasileiras com menor taxa de arborização urbana.3 O crescente movimento ambientalista tem se mostrado capaz de, a duras penas, delimitar áreas protegidas e reduzir o impacto em áreas vegetadas, mas mantém-se afastado das cidades, como território alheio a sua atuação.

É neste mesmo clima de tudo ou nada que se insere o projeto do Estádio Vivaldo de Lima, obra que transferiu definitivamente Severiano Porto a Manaus. O estádio foi completamente demolido para dar lugar às instalações complementares da nova Arena da Amazônia, projeto do escritório alemão GMP Architekten, uma das sedes do mundial da FIFA de 2014. Assim como a floresta, o Vivaldão (como fora apelidado), teve de ser destruído, pois a convivência era indesejada – ainda que perfeitamente viável.

O projeto de 1970 compreendia sua função primordial numa condição territorial: criar planos inclinados para as arquibancadas não precisam, necessariamente gerar uma grande estrutura acima do solo. Assim como outros projetos inteligentes  – Serra Dourada (Paulo Mendes da Rocha,1975) Braga  (Eduardo Souto de Moura,2003),  Pacaembu (Companhia City, 1939) – a condição do terreno é adotada como virtude, e a criação do anfiteatro é o simples resultado do aproveitamento da topografia. No caso de Manaus, uma topografia artificial, uma cratera resultante da ação humana.

A inserção da cidade no contexto financeiro global em 2014 repete, portanto, a lógica de contrapor o patrimônio (ambiental ou cultural) à transformação do território. O conflito não tem mediação, não há meio termo neste embate.

A linha precisa do limite da Reserva Ducke é expressiva ao revelar que a cidade ainda não sabe como interagir com a floresta. A desistência de Severiano Porto em práticas construtivas que não aquelas do saber tradicional são, de alguma maneira, o outro lado desta mesma moeda; sua obra que iniciou cidade parece querer terminar floresta.

“Quando ele chegou a Manaus, Severiano detalhava seus projetos como se fazia na época. Digo: da melhor forma que se fazia no Rio de Janeiro. A aplicação destes detalhamentos de marcenaria nos canteiros de obras em Manaus não foi bem sucedido no começo. Havia por parte dos trabalhadores falta de compreensão do projeto e irritação. Severiano foi bastante sensível ao notar que não se tratava de uma incapacidade do trabalhador, mas sim uma falha de projeto. Concluiu que a cultura local de trabalhar a madeira não estava contemplada.” 4

Há uma enorme plasticidade nesta tomada de posição, presente na valorização de técnicas locais e na liberdade formal que adquirem. Mas resta certa dúvida amargurada: a racionalização é realmente um horizonte inviável para o interior do país? Será que temos mesmo de desistir?

Notas de Rodapé

  1. Recentemente um grupo de arquitetos organizou um movimento de preservação da obra de Severiano Porto, com ações importantes como a obtenção do tombamento municipal de uma série de obras. Sobre o edifício de Balbina, especificamente, ver: https://www.facebook.com/salvevilabalbina.
  2. Ver: Joanna Helm. “Feliz aniversário Severiano Porto!” 19 Fev 2013. ArchDaily Brasil. Acessado 17 Out 2016. <http://www.archdaily.com.br/98384/feliz-aniversario-severiano-porto>
  3. Segundo o IBGE, Belém registrou o menor percentual entre os 15 municípios citados, com 22,4% do entorno dos domicílios com alguma árvore ao redor, em área pública. Em segundo, aparece Manaus, com 25,1%. IBGE, Censo 2010.
  4. Marcelo Borborema Correia, citado em Joanna Helm. “Feliz aniversário Severiano Porto!” 19 Fev 2013. ArchDaily Brasil. Acessado 17 Out 2016. <http://www.archdaily.com.br/98384/feliz-aniversario-severiano-porto>

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