31.08.2016

Caderno de Campo

Vânia Medeiros

A artista se propõe a um processo de criação em conjunto com 10 trabalhadores(as) da construção civil na cidade de Guarulhos. Com encontros semanais de aproximadamente três horas, os participantes-criadores produzirão, com a subvenção da artista, um caderno com desenhos sobre sua rotina de trabalho. O trabalho será remunerado, baseado no piso da categoria.

O projeto acontecerá em três etapas:

  1. Produção dos cadernos a partir da colaboração entre a artista e 10 trabalhadores da construção civil em Guarulhos;
  2. Publicação de um livro com imagens do processo e dos cadernos (tiragem de 1000 exemplares com distribuição gratuita);
  3. Mostra dos cadernos com conversa aberta e lançamento do livro na Escola da Cidade.

Conceitualmente, Caderno de Campo é um trabalho de composição entre arte, design e etnografia, que busca traçar relações e desdobrar devires entre esses três campos.

Justificativa

Vânia Medeiros

 

O caderno de desenho é um dispositivo apto a conservar o conhecimento, não como um registro inerte, mas como algo vivo. Nos referimos aqui a um tipo de desenho que não tem nada a ver com técnica ou virtuosismo de nenhum tipo, nem mesmo pretensões estilísticas. Falamos de um desenho que é um diálogo com o observado, em estado de atenção agudo, permeado de dúvidas e questionamentos. O antropólogo norte- americano Michael Taussig refere-se ao desenho como a instauração de “um novo olho”. Escrever, diz ele, produz julgamentos e sínteses, muitas vezes reducionistas da realidade. O desenho, por sua vez, lança perguntas. A cada vez que observamos o desenho feito no caderno e tentamos explicá-lo, uma nova definição do mesmo surge.

Deste modo, entendemos que propor a criação de cadernos de campo a trabalhadores(as) da construção civil pode servir como um potente dispositivo de investigação, problematização e comunicação das relações cotidianas de trabalho neste âmbito. Nas palavras de Taussig: “O caderno vira não apenas o guardião da experiência, mas sua contínua revisão, um órgão peculiar e altamente especializado de consciência, nada menos que um disparador da alma. Ele se transforma em uma extensão do indivíduo”.

As três partes do projeto são complementares para a noção de Intervenção Pública que entendemos aqui:

1) O trabalho diário e individual de cada participante-criador(a) e a partilha/ discussão semanal dos cadernos com a artista proponente, gerando intercâmbio e construção estética-política-pedagógica; 2) A publicação do livro sobre o processo, promovendo a disseminação e ampliação da discussão sobre as abordagens levantadas pelos próprios trabalhadores(as) sobre suas relações de trabalho e 3) O lançamento do livro com mostra dos cadernos e conversa aberta na Escola da Cidade corporificando os atores do processo e promovendo o diálogo presencial entre trabalhadores e estudantes de arquitetura, além do público em geral.

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